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Câncer de mama e o sistema intrauterino de levonorgestrel

Atualizado em 07/12/2021

1. Introdução


O sistema intrauterino de liberação de Levonorgestrel (SIU-LNG) é um método eficaz, de longa duração, aprovado em mais de 115 países e recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O uso do SIU-LNG vem crescendo em todo o mundo. No Brasil, a taxa de utilização do método, segundo o Ministério da Saúde, é de 3% entre todas as mulheres, nulíparas e multíparas(1).


2. Sobre o SIU-LING


O Levonorgestrel presente no sistema intrauterino é um progestágeno de segunda geração, que tem como ação: espessar o muco cervical, suprimir a proliferação endometrial deixando-o mais delgado, dificultando assim a implantação do embrião, caso haja a fecundação. A quantidade de Levonorgestrel liberada é baixa (20 μg/dia), com absorção sistêmica ainda menor. Além dos benefícios de contracepção, foram comprovados benefícios adicionais para o tratamento de sangramento uterino anormal e dismenorréia, causados por mecanismos fisiológicos de alterações endometriais. Além disso, devido ao efeito antiproliferativo endometrial, o SIU-LNG poderia prevenir algumas patologias endometriais causadas pelo uso do Tamoxifeno, como por exemplo a hiperplasia e os pólipos endometriais. Por essas razões, tem sido de interesse de toda comunidade científica avaliar o uso do sistema intrauterino liberador de Levonorgestrel e sua relação com o câncer de mama.



3. Progesterona e o câncer de mama


O papel da progesterona no câncer de mama teve sua discussão iniciada após a publicação em 2002 do Women's Health Initiative Study(2), no qual houve um aumento de 26% nas taxas de câncer de mama invasivo no grupo de mulheres que usou estrogênio associado a progesterona. Uma explicação possível para esse dado, é o efeito proliferativo que a progesterona tem na mama, além de ser mediadora da expansão das células-tronco na glândula mamária.
A maioria dos estudos não indica um risco significativo de câncer de mama com o uso de progesterona isoladamente, porém os vários tipos de progesterona, os modos de administração e as diferentes dosagens tornam os estudos dessa associação um grande desafio. Com o intuito de mapear e avaliar as atuais evidências disponíveis sobre o uso de SIU-LNG e a sua associação com o câncer de mama, foi realizada uma metanálise com estudos envolvendo 186.539 mulheres, publicada em 2021 (3).


4. Metologia


Essa metanálise envolveu quatro estudos (dois de caso-controle e dois estudos de coorte) que comparavam mulheres na pré e pós-menopausa em uso de SIU-LNG (n=28.054) e grupos controle sem câncer de mama (n=158.485) para avaliar o risco. Foram realizadas duas metanálises de subgrupos diferentes, de acordo com os desenhos dos estudos. As evidências foram consideradas de qualidade moderada.


5. Resultados


A metanálise dos estudos de coorte incluiu 144.996 mulheres (22.498 usuárias de SIU-LNG e 122.498 controles) e mostrou um risco menor, mas não significativo, de mulheres em uso de SIU-LNG desenvolverem câncer de mama (RR de 0,93, IC de 95%, 0,84-1,03). A metanálise dos estudos de caso-controle incluiu 41.543 mulheres (5.556 usuárias de SIU-LNG e 35.987 controles) e não indicou uma diferença estatisticamente significativa entre as mulheres usuárias ou não do SIU-LNG (OR, 1,07; IC de 95%, 0,91-1,26; I² = 37%). Assim, foi possível afirmar que em ambos subgrupos de análise não houve aumento do risco significativo de câncer de mama entre as usuárias de SIU-LNG antes ou depois da menopausa.





6. Discussão


Os dados dessa metanálise foram ao encontro de alguns outros estudos já publicados acerca do tema. Porém, em uma outra metanálise publicada em 2020 (4), os dados foram conflitantes, considerando o uso do sistema intrauterino liberador de Levonorgestrel como fator de risco para o câncer de mama. Essa metanálise incluiu os mesmos estudos aqui relatados, porém de forma agrupada. Além disso, incluiu alguns outros estudos que haviam sido excluídos da metanálise realizada por Silva, F. R, 2021.


7. Conclusão


Essa grande divergência presente entre os estudos e entre as metanálises demonstra que são necessários mais estudos sobre o tema, preferencialmente ensaios clínicos randomizados, que possam medir corretamente os níveis de progesterona e seus metabólitos, além de controlar alguns fatores de confusão permitindo uma definição homogênea quanto à associação entre o risco de câncer de mama nas usuárias do sistema intrauterino liberador de levonorgestrel (SIU-LNG).


7. Referências


  • Brasil. Ministério da Saúde. Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher – PNDS 2006: dimensões do processo reprodutivo e da saúde da criança. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2009. 300 p.

  • Rossouw JE , Anderson GL , Prentice RL , et al. Risks and benefits of estrogen plus progestin in healthy postmenopausal women: principal results from the Women’s Health Initiative randomized controlled trial. JAMA . 2002;288:321–333 .

  • Fabio R. Silva et al, Meta-Analysis of Breast Cancer Risk in Levonorgestrel-Releasing Intrauterine System Users, Clinical Breast Cancer, https://doi.org/10.1016/j.clbc.2021.03.013

  • Bray F , Ferlay J , Soerjomataram I , Siegel RL , Torre LA , Jemal A . Global cancer statistics 2018: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. CA Cancer J Clin . 2018;68:394–424 .
Autor(a)

Alícia Marina Cardoso
Mastologista pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Professora colaboradora da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ); Mestranda pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Associada à Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM); Ginecologista e obstetra pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ)