Tipo de terapia endócrina adjuvante e sobrevida livre de doença em pacientes com câncer de mama RH positivo/HER2-positivo precoce: análise do estudo ShortHer randomizado de fase III


INTRODUÇÃO
Os tumores de mama HER-2 positivos são muito heterogêneos, o que implica em situações clínicas, resultados e sensibilidade do tratamento muito diferentes. Por exemplo, pacientes RH positivo/HER2-positivo apresentam um menor risco de recaída nos primeiros 3 a 5 anos após o diagnóstico em comparação com pacientes com RH-negativo/HER2-positivo. A hormonioterapia ideal para pacientes com RH-positivo/HER2-positivo ainda não está claramente elucidada. O EBCTCG (2015) estabeleceu os inibidores de aromatase como o tratamento preferencial para pacientes pós-menopausa com uma redução significativa no risco de recaída de cerca de 30% em relação ao tamoxifeno. Este efeito foi mantido inalterado em ambos os subgrupos HER2-positivos e HER2-negativos. No entanto, o status HER2 não estava disponível para 70% dos pacientes nesta metanálise e o subgrupo HER2-positivo foi limitado no tamanho da amostra. Em pacientes pré menopausa com RH-positivo submetidas à supressão da função ovariana, o inibidor de aromatase é superior ao tamoxifeno, conforme demonstrado pelos ensaios TEXT e SOFT, com um ganho de sobrevida livre de doença distante em 8 anos de 4%. No entanto, os pacientes HER2-negativos obtiveram benefício do inibidor de aromatase (5,4% de benefício absoluto em DFS em 8 anos, HR 0,70), enquanto o tamoxifeno foi numericamente superior no subgrupo HER2-positivo (n = 695, 3,2% de diferença em DFS em 8 anos). Uma limitação importante de todos esses estudos é a pequena proporção de pacientes RH-positivos/HER2-positivos que receberam terapia anti-HER2 como parte do tratamento sistêmico. Portanto, é necessário avaliar a opção ideal de terapia endócrina para esses pacientes no contexto do tratamento adjuvante padrão.

MÉTODOS
Nesse estudo foram analisados pacientes com tumores RH-positivo e HER2-positivo constantes do estudo ShortHER (NCT00629278) que compara trastuzumabe de 1 ano versus 9 semanas adicionado à quimioterapia. A hormonoterapia adjuvante seguiu os padrões locais de acordo com as diretrizes.
Identificados 853 pacientes com tumores iniciais RH-positivo/HER2-positivo, mais da metade dos pacientes (59,6%) receberam AI, 23,8% receberam TAM e 16,6% TAM-AI. Não houve diferenças significativas no tipo de hormonioterapia adjuvante de acordo com o estágio da doença, grau histológico e braço de randomização.
RESULTADOS
Em um acompanhamento médio de 8,7 anos, as taxas de DFS foram: 86,4% para AI, 81,3% para TAM e 77,7% para TAM-AI (p = 0,032). Análises univariadas de cox-regressão com o grupo AI como referência mostraram um HR de 1,40 (95% CI 0,95–2,08, p = 0,089) para TAM e um HR de 1,68 (95% CI 1,10–2,55, p = 0,016) para TAM -AI. Uma vez que o grupo AI surgiu como aquele com o prognóstico mais favorável e os pacientes tratados com TAM ou TAM-AI mostraram resultados semelhantes, eles compararam DFS para pacientes tratados com AI versus pacientes tratados com TAM ou TAM-AI. As taxas de DFS em 8 anos foram de 86,4% para AI e 79,7% para TAM/TAM-AI, com uma diferença absoluta de 6,7% (p = 0,013). Em termos de OS, não houve diferença entre a hormonioterapia recebida.
Em análise das pacientes na pré-menopausa com idade ≤45 anos (n = 147) que utilizaram GnRH, 97% receberam TAM ou TAM-AI e apenas quatro pacientes receberam AI. Trinta pacientes neste grupo experimentaram um evento DFS. O GnRHa foi associado a taxas de DFS em 8 anos de 85,2 vs 62,6% (HR 0,41, IC 95% 0,19–0,88, p = 0,023).
Nos estudos TEXT e SOFT, para pacientes submetidos a OFS, o TAM foi numericamente superior ao AI no subgrupo de pacientes HER2-positivos. A metanálise EBCTCG comparando AI vs TAM no contexto de OFS para pacientes na pré-menopausa também sugeriu maior benefício de AI vs TAM na doença HER2-negativa do que na doença HER2-positiva (RR 0·65 vs 1·08, p=0·021). No entanto, o subgrupo HER2-positivo foi limitado em tamanho de amostra com um pequeno número de eventos. Além disso, a diferença entre tumores HER2-positivos e HER2-negativos não alcançaram significância estatística.
Um ponto chave final desse estudo é a análise exploratória do papel da OFS para pacientes na pré-menopausa. A adição de GnRHa a hormonioterapia (principalmente TAM ou TAM-AI) para pacientes na pré-menopausa com idade ≤45 anos foi associada a um DFS significativamente melhor. As análises de subgrupo do estudo SOFT demonstraram melhores resultados para OFS adicionado ao TAM na doença HER2-positiva.
Uma das limitações do estudo, impostas pelos autores, foi a não possibilidade de se avaliar adequadamente a duração da terapia além de 5 anos e a adesão/interrupções do tratamento. Além disso, as pacientes na perimenopausa não foram claramente definidas e outros meios de OFS além do GnRHa não foram capturados após a triagem. Todos os pacientes receberam trastuzumabe, embora metade deles tenha recebido tratamento de 9 semanas, o que não é o padrão atual. Finalmente, uma grande proporção de pacientes incluídos no estudo ShortHER seriam hoje tratadas com uma abordagem neoadjuvante seguida de trastuzumabe-emtansina em caso de não resposta patológica completa, portanto, a transferibilidade dos dados para pacientes contemporâneos do mundo real pode não ser direto.

CONCLUSÃO
Em conclusão, os achados apoiam o uso de IA como terapia adjuvante para pacientes HR-positivos/ HER2-positivos no contexto do tratamento adjuvante, associado com quimioterapia e trastuzumabe. Em pacientes na pré-menopausa, o uso de OFS prolonga o DFS. No entanto, a terapia endócrina oral ideal (AI ou TAM) neste subgrupo permanece incerta e justifica uma avaliação mais aprofundada em grandes coortes de pacientes tratados com terapia adjuvante padrão.
Médico Mastologista pela FMUSP/SP
Saúde sexual após o câncer de mama


INTRODUÇÃO
O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum e a principal causa de morte por câncer entre as mulheres no mundo. Contudo, devido à programas de detecção precoce e avanços no tratamento, as taxas de sobrevida vêm aumentando, nos chamando atenção para as questões relacionadas à saúde destas pacientes à longo prazo.
As alterações físicas e emocionais oriundas do tratamento influenciam a sexualidade de muitas pacientes. Focando apenas na sobrevida, os profissionais não se atentam à saúde na sua integralidade, negligenciando, por exemplo, a saúde sexual.
Secundário a tal premissa, foi realizado um encontro entre especialistas de várias sociedades científicas espanholas (Sociedade Espanhola de Menopausa, SMS; Federação espanhola de Sociedade de sexologia, FESS; Sociedade Espanhola de médicos de atenção primária, SEMERGEN; e a Sociedade Espanhola de Oncologia médica) que desenvolveram recomendações para o manejo de problemas sexuais em paciente pós tratamento de câncer de mama. Elas foram baseadas no sistema GRADE, que atribui níveis de evidência e força à cada recomendação.
EPIDEMIOLOGIA
Apesar de pouco estudada, a disfunção sexual em pacientes com câncer de mama é comum (ocorrendo em 25-66% dos casos). Os maiores problemas são diminuição do interesse sexual (49.3%), dispareunia (35-38%), preocupações quanto à imagem (10-14%), excitação (5%) e orgasmo (5%).
IMPACTO DOS TRATAMENTOS DO CÂNCER DE MAMA NA SEXUALIDADE
O tratamento do câncer de mama inclui cirurgia, radioterapia, quimioterapia e endocrinoterapia. Eles podem resultar em mudanças físicas importantes (alopecia, deformidade nos seios ou parede torácica, linfedema, mudanças na textura da pele, falência ovariana, irritação vulvar, fogachos e perda ou ganho de peso), gerando sensação de vulnerabilidade e diminuição da autoestima.
O tipo de cirurgia e a participação da paciente na decisão influencia a saúde sexual. Cirurgias radicais foram relacionada com maior disfunção sexual do que cirurgias conservadoras. O linfedema pode ser um agravante e a cirurgia reconstrutiva, apesar de melhorar o aspecto estético, também pode comprometer a atividade sexual ao diminuir a sensibilidade.
A quimioterapia e a endocrinoterapia (especialmente com uso de inibidores da aromatase) podem levar à hipoestrogenismo e atrofia vaginal. A radioterapia pode resultar em fadiga, eritema, edema e assimetria das mamas. Em conjunto, o uso de antidepressivos, muito utilizados pelas pacientes em tratamento também afeta a função sexual.
CÂNCER DE MAMA E SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA EM PACIENTES NA PRÉ-MENOPAUSA
Em mulheres jovens, o câncer de mama tende a ser mais agressivo, sendo também mais comum ansiedade, preocupações com à imagem, insônia e medo da recidiva. Além disso, a quimioterapia induz à falência ovariana na maioria destas pacientes, tornando importante a discussão sobre criopreservação de oócitos antes da quimioterapia ou ooforectomia profilática.
A maioria das diretrizes recomenda programar a gestação após 2 anos após o fim do tratamento dependendo do estadio e do tratamento recebido. A estimulação ovariana não é contraindicada, podendo inclusive ser utilizado tamoxifeno ou inibidor da aromatase em paciente com tumores luminais.
ESTRATÉGIAS DE TRATAMENTO
Alguns questionários validados podem facilitar a abordagem do tema, como o Female Sexual Function Index (FSFI) , EVAS-M ou SF-36 ou a Cervantes Scale.
A avaliação deve ser feita antes da cirurgia ou início da quimioterapia, após a cirurgia e após a quimio/radioterapia ou endocrinoterapia adjuvante e entre 6 e 9 meses da cirurgia com o objetivo de planejar e avaliar estratégias utilizadas (tendo o tratamento do câncer sempre prioridade).
TRATAMENTO
As terapias devem ser, de preferência, elaboradas por uma equipe multidisciplinar que inclua oncologistas, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e terapeutas sexuais.
ACONSELHAMENTO
A abordagem deve ser livre de julgamento, com uma linguagem simples e de fácil entendimento. As perguntas devem ser diretas e a paciente deve ser encorajada a questionar e sanar dúvidas.
Algumas concepções errôneas devem ser desmitificadas, como a de manter relações sexuais por medo de ser abandonada ou a de ser preocupar mais com o prazer do outro do que com o próprio. Também devem ser fornecidas dicas para melhorar a atividade e interação sexual, como o estímulo à realização de atividades prazerosas com o parceiro, além da realização de exercícios de Kegel, uso de lubrificantes ou vibradores. A inclusão do parceiro seja como rede de apoio ou em terapias conjugais é considerado muito efetivo para resolução de problemas sexuais.
LUBRIFICANTES E HIDRATANTES VAGINAIS:
Pacientes submetidas à quimioterapia, principalmente as mais jovens, podem sofrer com ressecamento vaginal e dispareunia. Os lubrificantes e hidrantes vaginais, se usados 3-5 vezes por semana, parecem ser efetivos e são considerados primeira linha de tratamento para esses sintomas. Em alguns casos, dilatadores vaginais, vibradores, técnicas de auto-estimulação e exercícios de relaxamento do assoalho pélvico também parecem eficazes.
ESTROGÊNIO VAGINAL:
A prescrição de estrogênio vaginal deve ser individualizada considerando as características tumorais, sintomas, fatores de risco e potenciais benefícios. Como os estudos realizados não contemplam pacientes com câncer de mama, eles devem ser considerados apenas se sintomas importantes e refratários a terapias não hormonais. Devem ser prescritos em baixa dosagem, e por via vaginal. Em pacientes usuárias de inibidores de aromatase, devem ser evitados ou utilizados por curto período de tempo. Devido ao menor tempo de clearance, é preferível o uso de estriol ao estradiol.
O uso também é preferível em usuárias de tamoxifeno, nas quais a mínima absorção sistêmica do estrogênio pode ser bloqueada pela medicação.
ANDROGÊNIOS:
Os dados para o uso de testosterona em pacientes com câncer de mama são limitados. Alguns estudos avaliaram o uso tópico para o tratamento da atrofia vaginal (através da transformação intracelular em estrogênio) e para o desejo hipoativo. Não foram observados aumentos importantes dos níveis de estrogênio séricos em pacientes com tumores em estádios iniciais em uso de inibidores da aromatase. Contudo, mais estudos são necessários.
TIBOLONA
O estudo LIBERATE mostrou aumento do risco de recorrência em usuárias de tamoxifeno tendo que ser interrompido. Portanto, a medicação não é recomendada.
RECOMENDAÇÕES FINAIS
Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Júlio de mesquita Filho (UNESP), com conclusão em 2016
Sobre o começo da Mastologia no Brasil

Lembro a história do início da Mastologia no país e alguns fatos importantes no seu desenvolvimento, dos quais tive conhecimento ou vivenciei. É importante apresentar aos jovens nossa trajetória.
Até meados dos anos 50 as doenças mamárias eram atendidas de forma não especializada por cirurgiões gerais, cirurgiões oncológicos e ginecologistas. Nesta época a demanda pela assistência ao câncer de mama cresceu muito; a par disto, o acúmulo de novos conhecimentos sobre a fisiopatologia do câncer, a técnica operatória e a hormonologia mamária, estimulou a criação de serviços especializados e centros de estudo dedicados. Nesta década foram fundados os primeiros Serviços de Cirurgia de Mama no país: Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, por Alberto Lima de Morais Coutinho; Hospital A. C. Camargo, em São Paulo, por George Arié; Hospital do Câncer de Recife, por Jaime Queiroz Lima; Hospital Aristides Maltez em Salvador, por Luiz de Oliveira Neves; Hospital das Clínicas, Disciplina de Ginecologia, em São Paulo, por João Sampaio Goes Jr.
A partir da existência destes centros surgiu a necessidade de conjugá-los para troca de experiências e incentivo ao estudo. Em 6 de julho de 1959, no Rio de Janeiro, alguns grandes nomes reuniram-se para fundar a Sociedade Brasileira de Patologia Mamária, mais tarde (1968) denominada de Sociedade Brasileira de Mastologia. Estiveram presentes na cerimônia de fundação João Luiz de Campos Soares, Jorge de Marsillac, Adayr Eiras de Araújo e Alberto Lima de Morais Coutinho, entre outros, sendo este último eleito seu primeiro presidente.
Depois, para a organização de mais centros especializados e difusão do conhecimento, foi fundamental o trabalho de outros cirurgiões de mama. Tive contato com muitos pessoalmente e gostaria de rememorar Alcides Ferreira Santos (PE), Antonio Franco Montoro (SP), Aurélio Monteiro da Silva (RJ), Aurélio Zecchi de Souza (SP), Braz Martorelli Filho (SP), Bylder Toledo Pizza (RJ), Carlos Alberto Valente (SP), Carlos Henrique Menke (RS), Carlos Inácio de Paula (GO), Carlos Zanotta (RJ), Domingos A. Petti (SP), Edison Mantovani Barbosa, Eduardo Santos Machado (RJ), Fausto Farah Baracat (SP), Fernando Gentil (SP), Fernando Miranda Henriques (DF), Gustavo A. de Souza (SP), Haroldo Juaçaba (CE), Helio Eloy Alves Dias (BA), Helio Senna dos Santos (PE), Henrique B. Brenelli (SP), Hiram Silveira Lucas (RJ), Indelécio Garcia Chaves (MG), Ivanildo T. Arruda (PB), Ivo Barreto de Medeiros (RN), Jayro Poggi de Carvalho (PE), João Carlos Sampaio Goes (SP), João Gomes da Silveira (RS), Jorge de Marsillac (RJ), José Antonio Ribeiro Filho (DF), José Aristodemo Pinotti (SP), José Baptista da Silva Neto (SP), José Carlos de Campos Christo (MG), José Salvador Silva (MG), José Ulcijara Aquino (MA), Laerte Justino de Oliveira (PR), Lair Barbosa de Castro Ribeiro (BA), Laurival de Luca (SP), Luis Antonio Brondi (SP), Luis Ferraz Sampaio (SP), Maciel O. Matias (RN), Manoel de Jesus Pinheiro (AM), Marconi M. Luna (RJ), Mario Mourão Neto (SP), Nelson Augusto (SP), Rene Faure (SP), Roberto Gomes (ES), Sebastião Piato (SP), Sergio Hatschbach (PR), Simão Grossman (RS) e Simão Rotstein (RJ). Com certeza, a limitação da memória não me faz lembrar de todos destas primeiras gerações de mastologistas que foram importantes e que mereceriam ser citados.
Em 1971, no elegante hotel Glória, no Rio de Janeiro, foi realizado o primeiro Congresso Brasileiro de Mastologia, presidido por Alberto Coutinho. O evento teve Jerome Urban, chefe do Serviço de Mama do MSKCC, como convidado especial.
Nesta época, João Sampaio Goes Jr. trouxe o primeiro mamógrafo para o país e foi grande divulgador do método. Seu filho João Carlos Sampaio Goes foi aprender a técnica com o Prof. Charles Gros, em Strasbourg, e pioneiramente em nosso meio, passou a trabalhar com o aparelho. Destacou-se na mamografia, a seguir, Domingos A. Petti (Beneficência Portuguesa de São Paulo), que voltava de treinamento em Milão, onde assistira ao Prof. Umberto Veronesi realizar a quadrantectomia número 1.
Em 1977, na UNICAMP, no serviço dirigido por José Aristodemo Pinotti foi realizada a primeira reconstrução mamária imediata, procedimento do qual ele foi o maior incentivador.
O primeiro médico a dedicar-se exclusivamente à Mastologia, sem atender em outras áreas, foi Antonio Franco Montoro. Em 1978, em São Paulo, fundou uma clínica totalmente dedicada às doenças mamárias.
Depois, uma nova e vigorosa geração de especialistas fez a Mastologia crescer no país. Entre muitos, destaco Antonio Figueira Filho (PE), ao retornar de pós-graduação na Inglaterra.
A Mastologia passou a ser Departamento da Associação Médica Brasileira em 1978 (trabalho de João Sampaio Goes Jr.), reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina em 1989 (trabalho de José Antônio Ribeiro Filho), e recertificada definitivamente em 2002, pela Comissão Mista AMB, CFM e Comissão Nacional de Residência Médica. Em 2004 foi inaugurada a Residência Médica no país, a primeira específica no mundo.
O primeiro concurso de provas para obtenção do TEMA ocorreu em Canela (RS), em 1986. Antes disto haviam sido concedidos títulos de especialista pela Sociedade a médicos de reconhecido saber.
Outros avanços: a Revista Brasileira de Mastologia, de caráter puramente científico, foi fundada em 1990 e o Certificado de Qualificação na Área de Atuação em Mamografia passou a ser concedido em 1995. Esta última conquista foi liderada por Marconi M. Luna.
Em 1994 foi realizado no Rio de Janeiro um Congresso Mundial de Mastologia, com 2500 participantes. Absoluto êxito, recorde de número de inscritos até hoje. Foi presidido por Antonio Figueira Filho.
A Escola Brasileira de Mastologia foi fundada em 1995, como entidade autônoma. Foi criada por Antônio Figueira Filho, Ezio Novais Dias, Henrique M. Salvador Silva, Marconi M. Luna, Maurício M. Costa e Alfredo Carlos S. D. Barros, com a finalidade de desenvolver a especialidade, organizando cursos teórico-práticos nos diversos pontos do país. Foi um grande êxito. Mais tarde, a Escola foi cedida e incorporada à SBM. Continuou sempre crescendo.
O futuro depende do conhecimento do passado. Recordar é preciso.
Alfredo Carlos S. D. Barros
Professor de Pós-graduação da Faculdade de Medicina da USP, Disciplina de Fisiopatologia Experimental.
O desafio profissional da mulher mastologista

Os desafios profissionais das mulheres médicas não são poucos, mas talvez esta pluralidade de tarefas, papéis e desafios sejam o motivo de tornar a vida de nós mulheres mastologistas ainda mais especial. Decidi compartilhar com vocês, neste mês das mulheres, o olhar de quem vive diariamente a busca pelo equilíbrio profissional e pessoal como mulher, médica, mastologista, esposa, dona de casa e mãe.
Desde 2009, nós mulheres já somos maioria nas listas de aprovados nas faculdades de medicina no Brasil e basta olhar as listas de aprovação do TEMA (prova de título de especialista) para verificar que, assim como na faculdade, temos sido também a maioria na escolha de nossa especialidade.
Conquistei o título de especialista em Mastologia seis meses antes do meu casamento, e nesta época, a maioria dos ingressos nas faculdades de medicina e principalmente nas áreas cirúrgicas era de homens.
Lembro que no início da profissão cuidava de mulheres idosas que pouco falavam a palavra câncer pelo tabu que representava. Neste período, tratava as avós das minhas amigas. Mastectomias com esvaziamentos axilares completos eram a melhor opção. A técnica deHalsted (técnica mais agressiva) já estava em desuso, mas ainda assim as cirurgias que eu realizava e as limitações causadas às mulheres pela técnica escolhida não eram pequenas. Sempre havia um grande número de mulheres usando “luvas” para tratar linfedemas nas salas de espera.
O conhecimento e as subdivisões entre os tipos de tumores eram bastante simples. Lembro que basicamente os tumores eram subdivididos em menores ou maiores que 1cm para se definir a adjuvância. Nesta época, ainda sem filhos, dedicava meu tempo somenteà medicina, trabalho e estudo. Como todo médico, buscava conhecimento e neste desafio de estar sempre atualizada iniciei a pós-graduação.
Meu primeiro filho nasceu um mês depois da minha “primeira filha” (minha tese de Mestrado) e aí os compromissos domésticos e cuidados com a família se somaram aos compromissos com a medicina. Independente de ter ou não filhos, o desafio de todas as médicas (e médicos) é coordenar a prática médica com a vida familiar. O equilíbrio é tênue, e frequentemente tende a desestabilizar …ruim para um lado, pior para o outro. A busca do equilíbrio ideal é um desafio contínuo.
O tempo passava e além da Mastologia já cuidava de uma família (o segundo filho veio 1 ano e meio após o primeiro). Comecei a perceber que passava a cuidar das mães das minhas amigas e da minha própria mãe. Já indicava tratamentos mais conservadores, passava a realizar preferencialmente cirurgias menores, que ainda incluíam o esvaziamento axilar na maioria delas, pois a pesquisa do Linfonodo Sentinela já despontava como tratamento que se mostrava efetivo, mas ainda exigia curva de aprendizado e sobrevida para se firmar como “standart of care”. Começávamos a identificar mais claramente grupos de risco e já não era somente o tamanho do tumor que determinava o tratamento adjuvante.
Os estudos moleculares começaram a definir melhor a heterogeneidade nos tumores; minha tese de Doutorado já avaliava diferenças nos tumores luminais, microambiente tumoral, e começávamos a indicar testes moleculares. Ou seja, cada vez mais, para ser Mastologista não bastava somente saber realizar a parte cirúrgica do tratamento da mama de nossas pacientes.
Logo após os 40 anos, comecei a tratar minhas amigas. Muitas delas médicas, mães, filhas, esposas, Mestres ou Doutoras como eu. Já com alguns anos de experiência, mais maturidade e com a medicina a nosso favor, passei a realizar sempre que possível o tratamento que tivesse a maior taxa de cura com menores efeitos colaterais. Passei a contar cada vez mais com um time multidisciplinar, a prestar mais atenção na humanização de todas as fases do tratamento e contei com muitas destas amigas para deixar meus filhos enquanto dava aulas em congressos.
Aos 43 anos, meus exames de rotina identificaram uma imagem Bi-rads 4 e precisei de uma biópsia de mama. Precisei ser cuidada por outras amigas médicas; dividi com o marido a necessidade da biópsia; saí da sala de biópsia e fui para o consultório para ver outras pacientes com a bolsinha de gelo dentro do soutien. Mostrei aos meus filhos o hematoma na mama após um deles esbarrar sem querer na minha mama recém biopsiada. Mantive a calma, mantive a fé e a esperança de que independente do resultado da biópsia haveria um tratamento possível: exatamente a mesma mensagem que devemos passar às nossas pacientes.
E assim concluo que o maior desafio profissional da mulher mastologista é o de conviver todos os dias com a possibilidade real e verdadeira de que o câncer de mama é o tumor mais frequente em “nossas vidas”. Como lidar com isso? Acreditando no que fazemos e buscando fazer cada vez melhor.
Feliz Dia da Mulher!
Head do centro de referência da mama do Accamargo Cancer Center.