Vida após o câncer de mama: Cuidados, menopausa e qualidade de vida

Vida após o câncer de mama: Cuidados, menopausa e qualidade de vida

Entrei na menopausa por causa do tratamento. O que muda e o que posso fazer?

Receber o diagnóstico de câncer de mama já é uma experiência intensa. Depois vêm cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia, consultas, exames, medos e recomeços. E, em algumas mulheres, junto com tudo isso, aparece uma mudança inesperada: a menopausa chega antes do tempo.

Isso pode acontecer porque alguns tratamentos reduzem ou bloqueiam a produção de estrogênio, o principal hormônio feminino produzido pelos ovários. A quimioterapia pode levar à falência ovariana temporária ou definitiva. Já os tratamentos hormonais, como tamoxifeno, inibidores da aromatase e bloqueio ovariano, podem provocar sintomas parecidos com os da menopausa ou intensificar sintomas que já existiam.

A primeira mensagem importante é: você não está “reclamando demais”. Esses sintomas são reais, são frequentes e têm tratamento. O objetivo não é apenas controlar o câncer, mas também cuidar da sua qualidade de vida.

Por que isso acontece?

Muitos cânceres de mama, especialmente os chamados tumores hormônio-receptores positivos, usam o estrogênio como estímulo para crescer. Por isso, parte do tratamento é justamente reduzir a ação desse hormônio no organismo.

Isso pode ser feito de várias formas:

  • pela quimioterapia, que pode afetar a função dos ovários;
  • pelo tamoxifeno, que bloqueia a ação do estrogênio na mama;
  • pelos inibidores da aromatase, que reduzem a produção de estrogênio fora dos ovários;
  • pelo bloqueio ovariano, feito com medicações ou, em alguns casos, cirurgia.

O resultado pode ser a entrada na menopausa ou o aparecimento de sintomas menopausais mesmo em mulheres jovens.

Quais sintomas podem aparecer?

A menopausa induzida pelo tratamento pode ser mais abrupta do que a menopausa natural. Por isso, os sintomas podem surgir de forma intensa e rápida.

Os mais comuns são:

  • ondas de calor e suores noturnos;
  • piora do sono;
  • irritabilidade, ansiedade ou oscilação de humor;
  • cansaço;
  • dificuldade de concentração;
  • ressecamento vaginal;
  • dor na relação sexual;
  • redução da libido;
  • ardor, coceira ou desconforto genital;
  • infecções urinárias de repetição;
  • dor articular, especialmente em mulheres usando inibidores da aromatase;
  • ganho de peso ou mudança na composição corporal;
  • perda de massa óssea.

Nem todas as mulheres terão todos esses sintomas. Algumas terão sintomas leves; outras, sintomas importantes. O mais importante é conversar com a equipe médica. Menopausa pós-tratamento não é “frescura hormonal”; é parte do cuidado oncológico.

A menopausa pode ser temporária?

Pode. Em mulheres que ainda menstruavam antes da quimioterapia, a menstruação pode parar e depois voltar meses ou até anos depois. Isso depende da idade, do tipo de quimioterapia, da reserva ovariana e dos tratamentos associados.

Mesmo quando a menstruação não volta, ainda pode haver alguma atividade ovariana. Por isso, mulheres que não desejam engravidar devem conversar com o médico sobre contracepção segura. E mulheres que desejam gestação futura devem ser avaliadas por equipe especializada em oncologia e reprodução.

Posso fazer reposição hormonal?

Na maioria das mulheres com histórico de câncer de mama, especialmente quando o tumor era hormônio-receptor positivo, a reposição hormonal sistêmica — comprimidos, adesivos, gel ou implantes com estrogênio, com ou sem progesterona — geralmente não é recomendada.

Isso ocorre porque estudos clínicos randomizados mostraram aumento do risco de novos eventos de câncer de mama em mulheres previamente tratadas que usaram terapia hormonal sistêmica. Por esse motivo, as diretrizes atuais priorizam tratamentos não hormonais para ondas de calor, sono, humor e sintomas genitais.

Existem situações muito específicas, geralmente em casos de sintomas incapacitantes, tumores de baixo risco e após discussão cuidadosa entre paciente, mastologista, oncologista e ginecologista, em que o tema pode ser individualizado. Mas essa decisão nunca deve ser tomada por conta própria.

Atenção também aos chamados “hormônios naturais”, “bioidênticos”, implantes hormonais, fórmulas manipuladas e fitoterápicos com efeito estrogênico. Natural não significa seguro. Algumas substâncias podem interferir no tratamento ou ter efeito hormonal indesejado.

O que posso fazer para as ondas de calor?

As ondas de calor e os suores noturnos estão entre os sintomas mais incômodos. Eles podem atrapalhar o sono, o humor, o trabalho e até a adesão à hormonioterapia.

Algumas medidas podem ajudar:

  • manter o quarto fresco;
  • usar roupas leves e em camadas;
  • evitar gatilhos individuais, como álcool, alimentos muito condimentados, ambientes quentes e estresse;
  • praticar atividade física regular;
  • cuidar do peso corporal;
  • evitar tabagismo;
  • manter rotina de sono;
  • reduzir cafeína à tarde e à noite.

Quando os sintomas são moderados ou intensos, existem medicamentos não hormonais que podem ser usados. Entre eles estão alguns antidepressivos em baixas doses, como venlafaxina, desvenlafaxina, citalopram ou escitalopram; gabapentina, especialmente quando os sintomas são noturnos; e oxibutinina em casos selecionados.

Um cuidado importante: mulheres em uso de tamoxifeno devem evitar alguns antidepressivos que interferem no metabolismo do medicamento, especialmente paroxetina e fluoxetina, salvo orientação muito específica da equipe médica.

Mais recentemente, surgiram medicamentos que atuam na via das neurocininas, como o fezolinetanto e o elinzanetanto. Eles são opções não hormonais para sintomas vasomotores da menopausa. No entanto, em mulheres tratadas por câncer de mama, especialmente em uso de terapia endócrina, a indicação deve ser individualizada, considerando disponibilidade, interações, segurança hepática e experiência clínica. Não são medicações para iniciar sem avaliação médica.

E o ressecamento vaginal?

O ressecamento vaginal, a dor na relação sexual, a ardência, a coceira e as infecções urinárias recorrentes fazem parte do que hoje chamamos de síndrome geniturinária da menopausa. Esse problema é muito comum em mulheres tratadas por câncer de mama, mas ainda é pouco falado — e, infelizmente, pouco tratado.

A primeira linha de cuidado costuma ser não hormonal:

  • hidratantes vaginais de uso regular, não apenas na relação sexual;
  • lubrificantes durante a atividade sexual;
  • fisioterapia pélvica;
  • orientação sexual;
  • dilatadores vaginais em situações específicas;
  • tratamento de infecções quando presentes;
  • cuidado com sabonetes, duchas vaginais e produtos irritantes.

Quando os sintomas são persistentes e comprometem muito a qualidade de vida, pode-se discutir o uso de terapias locais, como estrogênio vaginal em baixa dose, DHEA vaginal ou outras alternativas. A decisão deve ser compartilhada com a paciente e discutida com a equipe oncológica.

E a vida sexual?

A sexualidade pode mudar após o câncer de mama. Isso pode acontecer por vários motivos: menopausa precoce, ressecamento vaginal, dor, fadiga, alterações da imagem corporal, medo da recidiva, mudança na relação com o próprio corpo, cirurgia, cicatrizes, perda de sensibilidade, ansiedade e depressão.

Nada disso diminui sua feminilidade.

O primeiro passo é falar sobre o problema. Muitas mulheres sofrem em silêncio porque acham que “não deveriam reclamar” depois de terem vencido ou tratado um câncer. Mas saúde sexual também é saúde.

Podem ajudar:

  • lubrificantes e hidratantes vaginais;
  • fisioterapia do assoalho pélvico;
  • psicoterapia ou terapia sexual;
  • conversa aberta com o parceiro ou parceira;
  • tratamento da dor;
  • ajuste de medicações quando possível;
  • avaliação ginecológica especializada.

O objetivo não é “voltar a ser exatamente como antes”. O objetivo é recuperar conforto, intimidade, prazer e autonomia.

E os ossos?

A queda do estrogênio acelera a perda de massa óssea. Isso é especialmente importante em mulheres que entram na menopausa precocemente ou usam inibidores da aromatase.

Por isso, pode ser necessário acompanhar a saúde óssea com densitometria óssea, dosagem de vitamina D quando indicada e avaliação do risco de fratura.

As medidas principais incluem:

  • atividade física com exercícios de força e impacto adaptado;
  • ingestão adequada de cálcio pela dieta;
  • vitamina D quando houver deficiência ou indicação médica;
  • evitar tabagismo;
  • reduzir álcool;
  • prevenir quedas;
  • uso de medicamentos para os ossos, como bisfosfonatos ou denosumabe, quando indicados.

Em algumas mulheres com câncer de mama, os bisfosfonatos também podem trazer benefício oncológico adicional, especialmente em pacientes pós-menopausadas, reduzindo risco de recorrência óssea em cenários selecionados. Essa decisão deve ser tomada pela equipe médica.

E o coração, o peso e a atividade física?

A menopausa precoce pode aumentar o risco de ganho de peso, perda de massa muscular, aumento da gordura abdominal, alterações do colesterol e maior risco cardiovascular ao longo do tempo.

A boa notícia é que pequenas mudanças sustentáveis fazem diferença.

A recomendação geral é combinar exercícios aeróbicos com exercícios de força. Caminhada, bicicleta, musculação, pilates, hidroginástica e treino funcional podem ser úteis, desde que adaptados à sua condição física e às limitações do tratamento.

A alimentação deve priorizar padrão saudável: vegetais, frutas, leguminosas, proteínas de boa qualidade, grãos integrais, azeite, castanhas em quantidade moderada e menor consumo de ultraprocessados, açúcar e álcool.

Não existe dieta milagrosa anticâncer. Existe consistência. E consistência, ao contrário de milagre de internet, costuma funcionar.

Devo parar a hormonioterapia se os sintomas forem fortes?

Não pare por conta própria.

A hormonioterapia reduz o risco de recidiva em muitos casos de câncer de mama hormônio-receptor positivo. Porém, os efeitos colaterais podem ser difíceis. Se os sintomas estiverem intensos, converse com seu médico. Muitas vezes é possível tratar os sintomas, ajustar horários, trocar medicações, fazer pausas planejadas em situações específicas ou individualizar a estratégia.

A pior opção é sofrer em silêncio e abandonar o tratamento sem orientação.

Quando devo procurar ajuda?

Procure sua equipe se você tiver:

  • ondas de calor muito intensas;
  • insônia persistente;
  • tristeza, ansiedade ou irritabilidade importantes;
  • dor na relação sexual;
  • ressecamento vaginal intenso;
  • sangramento vaginal após menopausa;
  • infecções urinárias frequentes;
  • dor óssea ou fraturas;
  • queda importante da qualidade de vida;
  • vontade de interromper a hormonioterapia.

Esses sintomas têm manejo. Você não precisa atravessar essa fase sozinha.

Mensagem final

Entrar na menopausa por causa do tratamento do câncer de mama pode ser difícil, principalmente quando acontece de forma precoce e inesperada. Mas existem estratégias seguras e eficazes para melhorar os sintomas, proteger os ossos, cuidar da sexualidade, preservar a saúde cardiovascular e recuperar qualidade de vida.

O tratamento do câncer não termina quando acaba a quimioterapia, a cirurgia ou a radioterapia. A vida depois do câncer também precisa de cuidado, escuta e ciência.

Você merece sobreviver bem — não apenas sobreviver.

Autor(a)

João Bosco Ramos Borges

Coordenador da Comissão Survival/Pós Tratamento da SBM-SP

Autor(a)

Carla Priscila Kamiya Pessoa

Mastologista do Centro de Avaliação em Mastologia "Prof. Emérito Laurival A. de Luca" da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP