Dr. Laerte Justino de Oliveira

“O dia 1º de julho/2009 passou a ser uma data marcante para todos nós. São Paulo e o Brasil pararam por alguns momentos em reflexão pelo passamento do Prof. Pinotti. Significou uma grande perda para a Mastologia e para a Tocoginecologia Brasileira. Falar sobre a vida profissional e do homem Pinotti, quase que seria desnecessário, pois não há mastologista, médico ou cirurgião em São Paulo, no Brasil e no exterior que não o conheceu. Nos últimos anos, Campinas converteu-se na Meca da Mastologia, como bem se expressou o Profº Dr. Uriburu, quando em 1984, fez o prólogo do livro “Terapêutica em Mastologia” de autoria do Profº Pinotti. Graças à sua perseverante ação de pioneiro, o Profº Pinotti iniciou sua carreira Universitária na Unicamp, levado pela mão do Profº Dr. Bussamara Neme. Lá defendeu o seu Doutorado em um trabalho inédito “Ordenha do cordão umbilicial no pós parto imediato” e em seguida a Livre Docência em um belíssimo estudo da drenagem linfática como contribuição à cirurgia da Mama. E, por fim o concurso para Professor Titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Unicamp. Em Campinas, após todos esses feitos, galgou os postos de Diretor da Faculdade de Medicina, Reitor da Unicamp, deixou ainda obras como o Hospital da Mulher, o primeiro e por que não dizer único no país, pela sua abrangência assistencial e qualidade no ensino. Tudo com um único objetivo, uma Instituição Especializada no Estudo e Assistência a Mulher de Campinas e do Estado de São Paulo. Mais recentemente retornou a São Paulo, concorrendo ao concurso público de titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, retornando então à Escola onde teve o privilégio de cursar a Medicina. Este momento foi relevante para a Tocoginecologia brasileira, pois o Profº Pinotti concorreu em vaga deixada pelo Profº Dr. Carlos Alberto Salvatore, outro expoente de nossa especialidade. Sinto-me gratificado ao fazer este depoimento, pois ele foi um grande momento na minha carreira, fazendo parte da banca examinadora deste concurso histórico, na qualidade de membro suplente.
O Profº Pinotti não parou por ai. Exerceu cargos no governo de Estado de São Paulo como Secretário Estadual da Educação, Governo Montoro; Secretaria Estadual da Saúde no Governo Quércia, onde sabiamente implantou o SUS, que até hoje tem sido referencial para o Brasil. Sempre preocupado com a formação de médicos e voltado para a Mastologia, realizando cursos na especialidade. O seu serviço no Hospital das Clinicas da Universidade de São Paulo e no Centro de Assistência Integral a Mulher e a Infância “Hospital Pérola Bayton” foi e, é procurado por colegas que chegam de outros estados do Brasil e exterior, sedentos de aperfeiçoamento junto ao nosso Mestre da Mastologia Contemporânea. Conquistou a simpatia e o prestigio da Mastologia e da Ginecologia internacional que o levou a Presidente da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia, o que resultou em um memorável Congresso Mundial no Rio de Janeiro, em 1988. Sempre, frente aos grandes desafios, e um deles foi a política, candidatando-se à Prefeitura de Campinas, com votação excelente e em seguida eleito Deputado Federal por São Paulo em 1994, tendo sido reeleito várias vezes inclusive faleceu em pleno exercício do mandato. Este foi o Profº Pinotti, médico, Professor, cirurgião, administrador, político, e, nas horas vagas poeta e admirador da boa musica. Foi homem de muito trabalho e de bom trabalho. Pinotti foi cultor de velhos cirurgiões europeus, franceses, alemães e principalmente italianos – a Escola de Milão na pessoa do nosso guru da Mastologia o Profº Umberto Veronesi. Seu relacionamento com a Escola Canadense, Americana, Latino Americana e tantas outras em especial a Escola Argentina, Uruguaia, Chilena e Venezuelana muito enriqueceu a Mastologia brasileira. Ela que foi sua ocupação e preocupação permanente nesses quase 40 anos de continuado trabalho.
Sempre foi determinado e muito dedicado, enérgico e competitivo na suas realizações quer no ensino na assistência e na pesquisa. Na Mastologia, fez toda a sua vida Universitária e Docente. Nela, bem como na Ginecologia e Obstetrícia, desenvolveu toda a sua atividade de cientista, pesquisador e cirurgião. Este é o Profº em quem Aliança Saúde PUCPR – Santa Casa de Curitiba, em 05 de maio de 2006, decidiu convidá-lo para a inauguração do Serviço de Oncologia da Santa Casa, que honrosamente tenho a satisfação de ser o Coordenador. Nesta ocasião o Profº Pinotti ministrou a conferência “Um Modelo de detecção precoce e controle do câncer de mama para o Brasil.”. Foi pai dedicado, esposo exemplar, avô coruja que sabia curtir os netos, sogro sempre preocupado e cuidadoso, grande amigo, escritor e membro da Academia Brasileira de Medicina. Profº Pinotti era, uno, um só propósito, uma unidade intelectual, ética, a desdobrar-se em mil atividades e a manifestar-se sobre inúmeras facetas no ensino da graduação, na especialização, na pesquisa e no exercício profissional. Outra faceta do Profº Pinotti que me marcou para sempre, foi ser exigente, com tudo e com todos, principalmente consigo mesmo. Trabalhou até os seus últimos dias. Pinotti foi bom.Qualidade pouco presente nos nossos dias, e pouco na moda. Sempre bom para as pacientes, alunos, colegas de serviço e fora dele como aconteceu comigo, o que posso afirmar que devo muito ao Pinotti e ao seu Serviço, principalmente no inicio da minha carreira. Ajudou a todos que o procuravam, indistintamente. Sou testemunho vivo. Teve participação ativa no meu doutorado na faculdade de medicina de Ribeirão Preto-SP da Universidade de São Paulo. Deslocou-se de Campinas com a Suelly, para participar da minha livre docência e ginecologia, Departamento Materno Infantil da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Tenho orgulho e agradeço a Deus ter sido seu amigo, seu discípulo, companheiro de tantas jornadas, congressos e viagens ao exterior. Os tempos mudaram, mas o presente não há de fazer com que esqueçamos o passado remoto ou próximo, nem os homens que marcaram a grandeza de uma época. Fez escola de bom nível e de excelente qualidade. O Brasil todo sabe disso. Quero aproveitar este momento para declarar o meu entusiasmo por um ilustre cidadão brasileiro de São Paulo capital. Um homem que fez da medicina uma profissão de fé,, com competência e dedicação, especialmente à pesquisa e ao atendimento a comunidade, despojado de qualquer retorno financeiro. Com Pinotti, aprendi que amizade e gratidão são atributos da pessoa humana, mas que só os homens moralmente íntegros sabem prezá-las.
Encontrei tudo isso no amigo e muito mais. Por todos esses motivos, pela amizade que lhe dediquei e pelo muito que lhe devo é que faço este pronunciamento por ocasião da sua morte; “… o silencio quedo e deslumbrado a curvarse diante do gigante humanitário e fulcro exponencial da medicina, médico-símbolo da intangibilidade ética. Que o criador o tenha em sua glória.””

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